"Várias vezes por ano, ouvia eu meu avô contar, à mesa, sempre as mesmas anedotas a respeito da atitude que tivera o velho Swann por ocasião da morte de sua esposa, de quem cuidava dia e noite. Meu avô, que de há muito não o via, acorrera para junto dele, na propriedade que possuíam os Swann nos arredores de Combray, e conseguira fazê-lo deixar por um momento, todo em pranto, a câmara mortuária, para que não estivesse presente quando pusessem o corpo no caixão. Deram alguns passos pelo parque, onde havia um pouco de sol. De repente, o sr. Swann, pegando pelo braço a meu avõ, exclamara: "Ah!, meu velho amigo, que felicidade passearmos juntos por um tempo tão lindo como este! Não acha isso bonito, todas as árvores, esses pilriteiros e meu tanque? Você nunca me felicitou por meu tanque (...)" Nisto, voltou-lhe a lembrança da morta e, achando decerto muito complicado explicar como se deixava arrastar em tal momento a um impulso de alegria, contentou-se em passar a mão pela testa e esfregar os olhos e os vidros do lornhão, em um gesto que lhe era habitual, sempre que se lhe apresentava ao espírito uma questão delicada.
Nunca pôde, no entanto, consolar-se da morte da esposa, mas, durante os dois anos, que lhe sobreviveu, costumava dizer a meu avô: "É engraçado, penso muitas vezes em minha pobre mulher, mas não posso pensar muito de cada vez". "Muitas vezes, mas um pouco de cada vez, como o pobre do velho Swann", tornara-se uma das frases favoritas do meu avô, que a dizia a propósito das coisas mais diversas."
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido.
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