quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fetichismo do Bolsonaro

Vários dos críticos do Bolsonaro, antes de serem politicamente corretos e se indignarem, fizeram questão de lembrar o respaldo democrático da sua declaração, a "liberdade de expressão" que existiria no país (afinal, "o tempo da ditadura passou", diria alguém). Lembraram também que o sujeito fora eleito na plenitude das regras eleitorais (que seriam democráticas) e transmite a opinião de vários cidadãos. Legitimaram assim o pensamento do deputado, bem como de qualquer expressão em seu absoluto direito de existir. Esse foi o caso do Marcelo Tas e também o das matutações do Guilherme Fiúza, da Época; e Noblat, do Globo - na verdade, esses últimos mais preocupados em debater a liberdade do que propriamente o racismo ou a homofobia. Na Internet, arroubos de mesmo sentido abundaram.
Não acho que seja sofista da minha parte imaginar uma situação onde uma maioria numérica expresse a vontade de enfiar um pau cheio de pregos no rabo desses jornalistas e que eles expressem, no calor do momento, essa noção meio voltairiana que eles estão ostentando aí. É engraçado, então, ver os limites dessa idéia de tolerância com todas as posições. Se é óbviamente condenatório para todos as consequências efetivas de um pensamento (cagar sem dor é direito implícito na maioria das constituições modernas), não deixam esses arautos da liberdade de mergulharem em um fetichismo da democracia.
Todo ar de reflexão que eles apresentam, bem como essa postura de tolerância radical (que abriga até a intolerância!) não vai, isso sim, muito além de um sofisma. É uma forma de abstrair a realidade, de soterrá-la, e não é surpresa que o pensamento conservador se escore nessa idéia (há um pequeno post meu sobre o Invictus, do Clint Eastwood, que toca no assunto). Uma das coisas que esses jornalistas perdem de vista (e são tantas!) é que o Bolsonaro ali, bem como em toda a sua existência, não apenas veiculou uma idéia mas foi a efetiva manifestação da opressão sobre os homossexuais. Ele não foi somente algo que poderia dar em uma violência, ele foi a própria violência. Porque homofobia (e outras fobias sexuais) não é só agredir fisicamente mas subsiste em qualquer não-aceitação absoluta da homossexualidade (e de outras expressões sexuais). Ridículo, então, o Fiúza, exemplar e arrogante representante da mídia descerebrada, colocar que Bolsonaro "sequer pregou a intolerância aos gays". O jornalista também lembra, como se isso fosse relevante, que Bolsonaro "inclusive [disse] que eles são respeitados nas Forças Armadas. O que fez foi relacionar o homossexualismo aos “maus costumes”, dizendo que filhos com “boa educação” não se tornam gays."
Ou seja, uma trivialidade qualquer, coisa pouca.
A criminalização dessas idéias é altamente importante para o bloqueio de declarações como a de Bolsonaro, com toda a carga de sofrimento que elas geram - independentemente se são fruto de um escancaro militar autoritário ou de uma classe média educada e cheia de pudor. Argumentar pelo negativo é sempre complicado, mas acredito que a eficiência da criminalização pode ser vislumbrada na não menção, nesse jornalismo e nas redes sociais, do direito de proferir aversão aos negros - o que seria apenas uma consequência lógica desse direito de liberdade de expressão: afinal por que alguém não poderia, como já presenciei, manifestar alguma frustração (não digo nem proibição) se a filha resolve namorar um negro? E por que não se poderia dizer que a pele é mesmo feia e o cabelo, ruim? (e isso sem que se esqueça o "eu não sou racista, eu tenho um amigo negro"). Taí o grande movimento dessa cretinice contorcionista: ir do "social" ao "estético" é a mesma forma que existe quando se vai da aversão ao homossexual à liberdade de expressão. Puro reducionismo.
Um dos principais agentes contra a liberdade sexual no Brasil é o Silas Malafaia. Ele é uma grande raposa porque tenta dar ao seu obscurantismo, de forma muito pensada, algum grau de modernidade que seja viável jurídicamente. O seu argumento contra a PL122 se resguarda justamente na liberdade de pensamento. Tal seria possível porque (e toma-lhe firula argumentativa) não é contra um indivíduo, mas contra uma prática. Curioso é que o pastor, em sua explanação da questão, se ressente de não poder expulsar do local homossexuais que se manifestem enquanto tais no pátio da igreja - evidenciando mais uma vez que esse papo de liberdade de opinião de todos é sempre constrangimento material da liberdade de alguns.
Democracia é conceito sobre o qual a esquerda nunca conseguiu se apoderar, sempre lhe foi sequestrado. Mas no debate sobre criminalização da homofobia, espero muito que seu significado principal seja a expurgação de um pensamento que só gera opressão e sofrimento.

3 comentários:

José Knust disse...

O Paulo Moreira Leite, que não chega a se diferenciar tanto do mainstream jornalístico brasileiro, mas tem alguns posicionamentos interessantes, afirma que essa pressa em defender o Bolsonaro tem uma explicação simples: muita gente quer manter ele como interlocutor válido para manter a porta do golpismo como medida possível sempre aberta. Faz algum sentido.

O texto em que ele fala isso:
http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2011/04/01/bolsonaro-tem-um-lado-bom/

Anônimo disse...

A questão que Bolsonaronos tras de relevante é se o homossexualismo é uma caracteristica de nascença do individuo ou se é uma escolha cultural.

w disse...

Que diferença faz se é de nascença ou cultural, ou o diabo? Essa questão só é relavante para quem quer exercer juízo sobre a homossexualidade. Isto é, para quem quer exercer poder sobre ela.