segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Circo

O que tem havido é um gozo conjunto entre população, mídia e governo no Brasil inteiro e diante de toda essa orgia nada disfarçada há que se lamentar a ausência de pensamento. Não que ele tenha dado muito às caras antes, mas é que o clima de euforia é especialmente impeditivo de qualquer coisa que lhe seja diferente. Pudera: contra a televisão, que é o principal meio articulador da “verdade” sobre o que acontece, a gente não pode muito. Quando as imagens marcantes e toda a narrativa que acumulam expectativa encontram o nossos já tão entranhados medo e a esperança de seu livramento, temos um quadro propício para o desaparecimento de qualquer ponderação que seja diferente do que já está massivamente posto. Diante do clima que emerge em todos, não há espaço para nada além do imediatismo, calcado acima de tudo no sensacionalismo.


Existe então essa forma principal de sentir as coisas, de entendê-las. Essa forma diz que a operação no Alemão e na Vila Cruzeiro foram corretas, que está se dando passos importantes para se restaurar a paz na cidade; que a operação policial foi bem planejada e teve sucesso. Essa forma diz também que há uma guerra em curso e que nós a estamos vencendo. Entretanto, todas essas afirmações, assim como muitas outras, são falsas. Esse texto será curto demais para derrubar toda essa calhordice, mas o que se pode fazer em um primeiro momento é apontar o quanto elas aparecem como indiscutíveis, como absolutas. A mídia e o governo nunca problematizam o que eles próprios dizem: eles sempre apresentam sua opinião como um fato a ser assimilado sem crítica – na verdade, é muito mais do que isso: a possibilidade de crítica nem se coloca, não aparece de forma nenhuma no horizonte, como se o que falassem fosse a coisa mais natural e certa do mundo.


Diante de tudo que se possa apontar de errado na compreensão da política do Cabral, que também é uma política federal, compartilhada amplamente por aí, talvez um bom primeiro passo seja demonstrar, através dos próprios termos em que o discurso oficial se articula, como tudo que aconteceu foi desastroso, e não um sucesso. Esse argumenta pode facilmente se apoiar no noticiado fato de 4 moradores da Vila Cruzeiro terem morrido, e uns outros tantos atingidos de forma não-letal. A primeira questão que salta aos olhos é como uma incursão que supostamente deveria trazer “libertação” e segurança, causa justamente o oposto do pretendido. Tão perturbador quanto é pensar como uma operação militar que gera 4 mortos e fere outros moradores pode ser considerada adequada e, mais do que isso, de um êxito retumbante. Daí nós vemos um jornalista que, ao listar as falhas operacionais, fala de erro de contagem do número dos traficantes e sua fuga sem nem citar as fatalidades. Outro ainda fala do caráter “cirúrgico” da operação. Ora, uma polícia que dá rajadas de um helicóptero na direção de várias casas não me parece estar muito preocupada com precisão. Na verdade, quase todas as situações de tiro tem ao redor as habitações com seus moradores se guardando como podem. O tipo de arma usado tem um tiro que é letal por 550 metros e não se precisa pensar muito para ver que a presença das polícias nas favelas trazem um direto risco de vida para a população, o que incluí aí os tiros dos traficantes. Tudo isso acontece com o governo falando do máximo cuidado que a operação tem com a vida das pessoas. Puro cinismo.


Alguém pode falar que são mortes necessárias, que em uma guerra como essa sempre há baixas de inocentes, etc. Esse argumento é falso e perverso, mas nem precisamos rejeitá-lo para observar a diferença de abordagem da tragédia das famílias em relação àquele conferido à expulsão dos traficantes. O jornalismo, ao contrário do que ele quer fazer parecer, não lida objetivamente com os fatos, mas trata-os diferentemente de acordo com vários tipos de interesse, que podem ser conscientes ou não. A emoção das famílias que perderam parentes com os tiros dessa operação foi retratado em reportagens, mas o investimento emotivo da mídia em geral foi muito maior sobre a sensação da vitória, reforçando o discurso de que estamos em guerra, de que aquele fora o Dia D, etc. Este caminho é de maior IBOPE do que aquele que daria primazia aos assassinatos dos favelados, algo já banalizado. A mídia preferiu seguir a ondinha da guerra, uma matéria-prima de maior apelo para o jornalismo, mais capaz no dado momento de causar comoção. Note-se aí que poderia haver uma escolha entre festejar a conquista do território (o que aprova a estratégia do Cabral) e enfatizar a tragédia de 4 pessoas mortas (o que condenaria a operação) – a mídia nos leva a massivamente embarcar na primeira, como se essa forma de sentir o problema fosse a mais natural ou a única possível.


(Este meu argumento de forma alguma pressupõe que a mídia determina tudo o que as pessoas sentem ou pensam. Muito embora a mídia possa criar e veicular mais ou menos isoladamente, a interação entre mídia e sociedade é mais complexa. A televisão em especial é, na verdade, a grande articuladora e conformadora da forma hegemônica de se perceber as coisas.)


Sobre a consideração de que as mortes dos favelados inocentes terem sido um “mal necessário”, é necessário relembrar que a implantação de algumas (não sei se de todas) upps terem acontecido sem nenhum disparo. É engraçado que a imaginação seja tão entravada a ponto de não visualizar a expulsão de traficantes do morro sem o poderio bélico, como já aconteceu. Mas uma operação como essas, tão sem ardis, não mobiliza tanto emocionalmente uma sociedade: o ganho político de um Sérgio Cabral (e de um Lula, que visitará o Alemão em breve) e o financeiro das emissoras e jornais é muito maior quando o que acontece é esse circo que estamos vendo. E é um circo que se construiu sobre a vida de alguns moradores, custando às famílias um preço de que talvez não tenhamos uma clareza maior porque foi ofuscado por esse avanço tão pequeno e tão mistificador.


O oba-oba obscurece nossa sensibilidade para com os favelados não só em relação aos que morreram, mas também aos que estão sofrendo grandes abusos e roubos de policiais. Novamente, a mídia noticia isso. Porém, seletivamente, seu foco é muito maior sobre o apoio que essa população tem dado à operação, para reforçar o sentimento de todos unidos em uma marcha triunfante sobre o tráfico, etc. É esse tipo de sentimento que vai continuar nos tornando estúpidos, sem pensar com nenhuma maturidade ou complexidade o problema da violência no Rio. Quando este sentimento se impõe, essa polícia capenga e inconseqüente aparece como heróica. Quando este sentimento se impõe, nós achamos que estamos vivendo um momento especial de combate ao tráfico, quando na verdade já aconteceram várias operações dessa magnitude sem que o quadro geral da cidade tenha mudado; a gente passa a achar também que existe o bem e o mal, esquecendo que é justamente um sistema que envolve o próprio governo e a polícia que alimenta a violência. Esse sentimento faz a gente acreditar que o desrespeito aos direitos humanos, a execução dos traficantes, etc., é importante para que a violência diminua na cidade, quando a verdade é justamente o contrário: os direitos humanos são condição essencial para uma eficiência da polícia, para que a cidade fique mais tranquila, como qualquer estudioso decente do assunto pode atestar. Mas quando esse clima de guerra está instaurado, que espaço há para uma reflexão dessas?


Enquanto isso vai passando batido um dos sentidos da política do Cabral (apoiada pelo governo federal – é imprescindível lembrar): o enquadramento não só do tráfico, mas dos pobres. Historicamente, o governo na cidade tem esse movimento de enviar os pobres sempre para um inferno mais longe (como Pereira Passos no começo do século passado). Um quadro propício para a especulação imobiliária, sempre influente nos assuntos da cidade, fazer a sua brincadeira, além de outros tentáculos econômicos que hoje estão embarreirados nas favelas.

Por último vale lembrar que toda expressão de violência estatal sempre mostra qual é o lugar de cada um e que cada um deve se conformar a este lugar: os excluídos do sistema em todas as partes do mundo, e ainda mais quando estão tão amontoados, são puro potencial desordeiro. Os pobres eram chamados de “classes perigosas” antigamente no Rio, e continuam sendo. Não à toa o nosso governador acha o aborto uma questão de segurança pública.

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