sábado, 27 de novembro de 2010

Roxo

-Viestes, já te esperava para um adeus.

-Não te trago adeus, João, mas se perdes. Deixas-me sozinha, no escuro, sem o alento de uma compreensão.

-Para além do que assalta teus olhos e do que há saiu da minha boca, não existe nada. O que eu tenho é paixão pelo roxo e o que faço é pela força de sua beleza. Estais livre para preencher o que eu ignoro, estais livre para pensar o que te dê conforto, raiva ou remorso. Qualquer coisa que te faça digerir que não só minha camisa é roxa, que não só a minha calça é roxa, mas que meus lábios também o são por conta do batom mais forte e roxo que pude comprar; que o que pensas seja um lenço que te cubra um erro ou um véu que disfarce minha loucura de ter dois borrões roxos entre os meus olhos; use a filosofia que quiseres para enfrentar tua vergonha, use uma filosofia sofisticada ou o jargão mais trivial para entregares com um desdém de natureza a explicação para o seu pai e para sua mãe, que perguntam por que minhas unhas são roxas.

- Nunca te trouxe um fardo, João, e nem vou pôr nada sobre tuas costas agora. Pois me poupe dessa raiva, e não se debata mais como uma criança. Temo pela sua vida e deves ter cuidado...O que foi? Não chores tanto assim...

-Os homens quase me alcançaram hoje, Lídia. Como eu corri! E com que forças? Ah, Lídia, não chores também, me perdoe. Onde puseste teu coração? Não chores. Eu te faço mal.

-Amor, que eu me engasgue com esses soluços e padeça antes de chegar a uma velhice onde tú não estejas. Verto lágrimas por ti todos os dias, mas que cessem, que elas te prendem, que elas te dobram.

-Lídia, eu vou pintar toda essa casa de roxo, do chão ao teto e todas as paredes de todos os cômodos com o mesmo tom, e o meu cabelo hoje mesmo...

-Eu te trouxe um presente. È uma caneca.

-É roxa...amor, por favor, não digas mais nada, não faças mais nada. Serás um tom discrepante nessa casa e não poderás viver com a mancha que se imporá sobre o seu corpo.

-Amor...

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