quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Amor

-Padre, não vos preocupeis e não há necessidade de nenhum reconhecimento - respondeu Brotteaux. - O que estou fazendo nesse momento e cujo mérito exagerais, não o faço por amor a vossa pessoa: pois afinal, padre, embora sejais amável, conheço-vos demasiadamente pouco para amar-vos. Também não o faço por amor à humanidade: pois não sou tão simples quanto Don Juan para crer, como ele, que a humanidade tem seus direitos; e esse preconceito, em um espírito tão livre quanto o dele, me aflige. Faço-o por esse egoísmo que inspira ao homem todos os atos de generosidade e devoção, fazendo com que ele se reconheça em todos os miseráveis, predispondo-o a lamentar seu próprio infortúnio no infortúnio de outrem e incitando-o a ajudar um mortal semelhante a ele por natureza e destino, a ponto de fazer com que acredite socorrer a si mesmo quando socorre o outro. Faço-o também por ócio: pois a vida é a tal ponto insípida que é preciso distrair-se dela a todo custo e a benemerência é um divertimento bastante insípido, na falta de outros mais saborosos; faço-o por orgulho e para ganhar vantagem sobre vós; faço-o por fim, por espírito de sistema e para mostrar-vos do que é capaz um ateu.
- Não vos calunieis dessa forma, senhor - respondeu o padre Longuemare. Recebi de Deus mais graças do que Ele vos deu até o momento; mas valho menos que vós e sou muito inferior em méritos naturais. Permiti-me, contudo, ter uma vantagem sobre vós. Como não me conheceis, não podeis me amar. Quanto a mim, senhor, sem conhecer-vos, amo-vos mais que a mim mesmo: Deus o ordena.


Os Deuses Tem Sede, Anatole France

0 comentários: