sexta-feira, 26 de junho de 2009

Defesa e liberdade

Ele confessava que não sabia ler e escrever, falava isso na menor oportunidade pras pessoas, rindo de si próprio e fazendo todos rirem, que é pro assunto não vir à tona com ele desprevinido, que é pra ninguém rir dele sem ele, porque alguém que ri de alguém que ri de si próprio está sempre desarmado. Ele também confessava que confessava que não sabia ler e escrever, um segundo escudo contra o primeiro, que é pras pessoas não dizerem que ele falava que não sabia ler e escrever pra se defender. Assim, ele brincava consigo mesmo pra não cair em uma situação constrangedora mencionando que brincava consigo mesmo pra não cair em uma situação constrangedora. Uma vez, ele chegou mesmo a dizer que confessava que confessava que confessava que não sabia ler e escrever. O resultado disso era desastroso porque todo mundo notava que aquele esquema de aparências era o modo mais fácil de mostrar o que ele tentava esconder. Foi só porque essa estratégia acabou se mostrando furada que ele acabou se resolvendo de verdade, através de uma mais ou menos simples decisão de que aquilo não lhe seria mais um problema. Depois disso, ele pôde pensar melhor se valia ou não a pena entrar na escola para aprender a ler e escrever. Podia pensar melhor porque o seu problema agora era o não saber ler e escrever e não a sua imagem de alguém que não sabe ler e escrever. E todas as vezes depois em que o assunto apareceu e as pessoas riram, ele pôde rir junto, mas agora ele verdadeiramente ria dele, e para ele e com elas, e não mais por elas.

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