domingo, 31 de agosto de 2008

Touched (Michael Sweet)


Esse é um disco especial do Michael Sweet, um cara que não ocupa o merecido destaque entre os amantes do glam rock e, eu não canso de dizer, um dos meus músicos favoritos. Aqui não há solos inspirados nem super-agudos que chegam ao céu: é só o bom Sweet, um piano, uma simples orquestra e uns coros para dar aquela força. Enfim, é coisa para se tocar em casamento e novela. É basicamente releituras de músicas do Stryper e covers de alguns clássicos.


O disco abre da melhor forma com My Love, My Life, My Flame, música promocional que é o carro-chefe da imagem de coroa-galã-marido-ideal que Sweet promove neste álbum, totalmente dedicado à sua esposa Kyle, e única faixa inédita. Em seguida, You Are So Beautiful, de Louis Armstrong, conhecida por qualquer pessoa minimamente civilizada, e que dispensa comentários. Idem para Without You.

Vale muito a pena conferir as antigas baladas do Stryper. Elas perdem aquele ar oitentista, e não existem também nelas as eventuais bateria e guitarra, desprovindo totalmente as canções da sua cara original de balada de banda de rock e dando um tom mais clássico. Acho que Michael perde a oportunidade de trabalhar outros timbres vocais em Honestly (música cuja letra marotamente tem sentido dúbio: pode ser tanto para Deus – o Stryper é uma banda evangélica- como para uma mulher, uma forma de se matar dois mercados com uma balada só), coisa que ele faz acertadamente em All of Me, a canção mais fortemente modificada, onde, além da voz, Sweet experimentou um violino para substituir um dos teclados meio cafona da versão original. Mais alterações na voz há em Together As One, bem mais intensa que a original, onde ele injeta um coro em um dos versos que, puta-que-o-pariu, vale por todo o disco.



Ontem no Stryper e hoje: Sweet é o que está no centro, acima.


O resto é mais do mesmo, em um sentido totalmente positivo, e alguns destaques são difíceis de colocar: são todas músicas belíssimas, bons arranjos (ainda que nada excepcional ou muito criativo) e vocais cativantes. Talvez seria mais interessante um disco mais variado, não que este não seja o suficiente, mas algo que destoasse um pouco da esfera romântica seria bem-vindo, mas como a parada é para patroa, acho que tudo ficou limitado ao gosto dela (rs).

Prefiro o Sweet empunhando uma guitarra, de laquê no cabelo e calças listradas, mas esse de Touched é ótimo também.

sábado, 30 de agosto de 2008

De um jeito só

"Ele seguia o caminho que devia seguir, um pouco negligente e sem ritmo, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado, olhando para a distância, e, quando errava o caminho, isto acontecia porque para alguns seres não existem caminhos certos. Quando lhe perguntavam o que pensava ser, dava informações contraditórias, pois que costumava dizer (e já tomara nota disto) que trazia em si possibilidades para mil existências, tendo no íntimo o conhecimento de, no fundo, serem tudo coisas impossíveis..." (Thomas Mann. Tônio Kroeger.)

domingo, 24 de agosto de 2008

Che feio












É só clicar nas imagens que elas vão aparecer ampliadas.
Eles são parte de um concurso de desenhos chamado Che Feio. O prêmio é uma caixa de charutos.
Tem um lá de humor negro que eu não sei se desaprovo a falta de coração do indivíduo que criou ou se me acabo de rir.
Para ver tudo, é só clicar aqui.
Post dedicado ao meu amigo Léo, que parece um desses ches aí.

sábado, 23 de agosto de 2008

Otium Catti

Escrito pelo meu amigo Sinjoro.

O Gato

Gato mimado é gato perdido e Mequetrefe recebia de tudo ali naquela casa, tinha todos os direitos. Além do que, chegava a dormir cerca de vinte horas por dia. Gato de Antônia, filha caçula, sabia bem como desfrutar de tudo quanto lhe era oferecido. O adágio popular, que diz que os gatos caem sempre de pé, não servia muito bem para explicar a vida deste bichano porque se tinha uma coisa difícil de acontecer era o fato de Mequetrefe não estar dormindo ou, no mínimo, deitado, esperando por mais um pires de leite frio.
Tinha tudo para ser um gato da alta hierarquia na sociedade felina e profundamente respeitado por fazer belas investigações para o progresso da vida dos gatos de gatópoles. No entanto, não era muito chegado à socializações. Meio misgatopo, possuía pêlo comprido, era pesado e quase nada ativo. Já há muito não seguia o estandarte da curiosidade, ideologia tão comum entre os de sua espécie. Primo distante de um gato italiano, que morto há três dias, continuava deitado na cadeira de um bar, porque todos julgavam que ele apenas dormia um de seus preguiçosos sonos de gato, Mequetrefe, ainda assim, era a grande alegria de Antônia, uma menininha muito só.
Embora dormisse quase o dia todo, não estava velho e nem cansado, apenas não conseguia encontrar na vida forças para continuar. Já tinha aprendido que sua função de gato doméstico estava sendo bem cumprida, afinal, sua dona não reclamava de nada. Ao contrário, sempre o mimava mais e mais e, de quando em quando, agradava-o com o mais maravilhoso cafuné. Se ninguém se manifestava, se nada era dito contra seu modo de ser, não havendo críticas, para quê contrariar práticas que já tinham até antecedentes na família?
Engana-se quem pensa que, por estar deitado ou dormindo, Mequetrefe não sabia de tudo que acontecia a sua volta. Mestre dos sentidos, ele via e ouvia quase tudo, sendo conhecedor de inúmeras coisas que acontecia naquela casa, sobretudo algumas confusões, tipicamente infantis, em que se metia a menina Antônia. Mas, nada disso o interessava. Nas horas em que estava acordado, até se animava a escutar um pouco de piano, mas nunca se interessou em ir além disso. Sempre esteve cercado de livros, quadros, discos e inúmeros outros artefatos das mais diversas representações culturais, tanto dos gatos quanto dos humanos. Entrementes, nem mesmo pelas reuniões de gatos, que ocorriam, sempre às terças-feiras, na esquina da casa em que vivia, era interessado. Considerava tudo isso uma nadificação do nada. Só não queria se envolver.
Não fez nada de interessante pelos gatos, mas estava plenamente satisfeito. Certo é que Mequetrefe considerava que poderia ser uma boa idéia aprender a escrever, como Antônia, e grafar suas expectativas em um diário, mas, quando imaginava a dificuldade que iria enfrentar, logo desistia. Também foi assim que não quis aprender a ler e nem a contar histórias. Viajar era outra coisa bastante difícil para ele, pois só de considerar os esforços para arrumar as malas já se sentia preguiçoso. Sendo assim, nem mesmo nas férias gostava de sair de casa e não tinha muito contato com outros gatos, oriundos de outras partes do mundo. Certo dia, Antônia tinha ido brincar com suas amigas, logo depois da escola. Demorou bastante para voltar pra casa. Quando chegou, encontrou seus pais tristes e, ao lado deles, um homem com uma pasta preta escrita: “A saúde dos gatos”.
- Conta para ela! Disse a mãe.
- Não, conte você! Respondeu o pai.
Toda preocupada, Antônia, sem saber o que fazer, quis foi logo ouvir a triste notícia, da qual já suspeitara ao ler a pasta preta do homem estranho. É, Mequetrefe estava morto!
- Pobre gatinho! Como se deu a morte? Perguntou a doce menina.
- Carrapato! Respondeu o homem. “Foi Carrapato!”.
E isso é tudo que sabemos de Mequetrefe, pois, como foi aqui claramente exposto, ele não se preocupou em fazer nada, era muito preguiçoso, não nos deixou nada escrito e ainda morreu de carrapato.

Freddie Krueger

Post dedicado à minha amiga Pamela.

O som da tv estava alto mas não foi obstáculo nenhum para que eu logo caísse no sono. Logo, vi-me em um trampolim. Tirei o roupão pesado que carregava e pulei para cair na piscina do sono e afundar por milhares de kilômetros até às regiões abissais, onde estaria uma cama onde eu dormiria, para ter um sono dentro do sono, mas não um sonho dentro do sonho (ainda que se pudesse dizer que seria um sono dentro do sonho), porque se há sonho, não há isolamento do mundo, e não era outra coisa que eu queria senão uma verdadeira “morte temporária”, porque esquecer, ainda que temporariamente, é preciso, e eu o queria tanto que, como vocês já podem perceber, buscava, mesmo dormindo, esse sono sonhado que, na verdade, nada mais é que um sono muito profundo. Porém, tive sucesso só depois de muito custo, e essa história é somente sobre isso, pois o mundo, como o carrapato que é, se apegou a mim e quase não me foi possível me desvencilhar nem da programação da Globo que vinha da tv, nem das chatices do cotidiano, das preocupações grandes e pequenas, dos compromissos e etc, coisa que eu queria não como um suicida dramático, mas como um cansado comum, pois que tudo isso invadiu o meu sonho e impediu o meu sono, não o real, claro está, pois se esse fosse, não haveria sonho, mas aquele almejado, como poderão ver todos os leitores que prosseguirem nessa narrativa, coisa para qual contribuirei, forte é minha vontade de que todos continuem lendo, não mais entupindo essas linhas de apostos, posto que eles são uma grande chatice e um recurso literário um tanto over. Assim, apenas 2,384 segundos depois do salto, exatamente após a terceira pirueta, meu infortúnio começou: fui capturado em pleno ar por um pombo, cuja cabeça era a do presidente da Oi. Se não importa se perguntar qual das duas naturezas daquele ser é a mais odiosa, o fato é que com a sua garra vermelha e suja me segurou e foi com ela, em um movimento notável, que me arremessou para bem longe da piscina.

Fui jogado contra uma janela que se estraçalhou e caí sentado à mesa de um restaurante onde, à minha frente, minha namorada sorria. Meu terno estava impecável, a não ser pelo detalhe esverdeado, tiro do pássaro. Na mesa havia vinho, uma massa e a música-tema do Skank ao fundo. Eu tinha esquecido seu presente e ela, ao percebê-lo, deixou transparecer nos olhos que havia se chateado. Depois, se ajeitou na cadeira como se estivesse um pouco incomodada. Achei que fosse por causa dos índios que se aproximavam.
-Amor, que felicidade a gente aqui!, ela disse
-É verdade.
Por nenhum motivo aparente, disse que ia banheiro e já ia me levantando quando ela pegou na minha mão. Ela percebeu a intenção de fuga, e era muito mais intenção que fuga, porque em uma situação como essa só se mexem os braços, nunca a grade:
-Amor, fica aqui. A gente precisa aproveitar esse momento...Ontem a gente nem ficou junto só porque você queria jogar dominó...
-Mas era a final do campeonato! Olha, desculpa, mas eu preciso muito voltar para...

Não havia terminado a frase e levei uma flechada. Depois do sequestro-relâmpago, me deixaram na av. Rio Branco, bem à frente do prédio da mega-poderosa S & S Finances Corp. Olhei para o relógio e vi que era exatamente a hora em que tinha marcado uma entrevista lá, coisa que lembrei com tristeza. Fui recebido por um executivo, não o mesmo que me receberia na quarta, quando iria lá de verdade. Ele me falou que a rotina mortificante seria bem remunerada, e ainda havia chances de subir na empresa. Me deu então o contrato para que eu assinasse. Meu pai me olhava do canto da sala com expectativa e receio. Ao lado dele estava o meu carro, que fazia rrrrrerrrrererrerrrrrerrrrrre, um barulho que há semanas não sabia precisar de onde vinha, qual era sua gravidade ou que facada me seria cobrada por ele. Naquele momento, coloquei a mão na cabeça e vi que tinha muito sangue. Olhei no espelho e vi meu crânio aberto na parte superior da cabeça e muitas feridas, todas causadas porque ele, meu carro, vinha comendo pequenos pedaços do meu cérebro, e não me perguntem quando foi aquilo e nem como eu não o tinha percebido, afinal, isso é um sonho e no sonho as coisas são assim mesmo. Olhei para o executivo que aguardava minha resposta e vi que ele não estava se importando com os machucados porque aquele emprego requisitava muita técnica, mas as melhores partes do cérebro eram dispensáveis.

O carro engatou a primeira e eu diante do perigo corri em direção à porta que estava atrás da bancada onde Daniel Dantas se defendia. Era a porta que dava para um santuário, o lugar que me bastava naquele momento e onde amiúde eu me basto, o meu quarto. 1.0, ele não me alcançou antes de eu chegar lá. Achei que encontraria o ponto final dessa história ali, mas eis que a campainha toca.

Era a festa me convidando. Disse que não iria porque estava muito cansado, um argumento que não lhe fez o menor sentido. Ela mostrou que estava todo mundo lá, que havia bebida a rodo e boa comida. Falei que realmente lamentava, mas que não ia dar. Ela insistiu e investiu pesado falando não sei o quê de “vida é para ser vivida”, “carpe diem”, etc. Resolvi mentir, então. Falei que tinha uma prova mas ela me lembrou que era domingo. Falei que era um concurso público e ela falou que não existia mais Estado. Ela me perguntou se havia algum problema com ela. Disse um pouco irritado então que só queria ficar sozinho, longe dos pequenos jogos cotidianos e mesmo das risadas. Ela foi embora e eu, saindo da dimensão ultra-liberal, me encontrei no deserto, o lugar de fuga por excelência.

O calor incomodava, mas eu só sabia me contentar com o silêncio e a ausência das coisas. Encostei a cabeça em uma pedra e fechei os olhos. Mal tinha deitado, apareceram Deus, o Dr. Fernando Lucchese e a Cláudia Raia. O primeiro me mostrou todas as coisas e todas as pessoas da minha vida e depois disse: “Levanta, minha criatura! A ti ordeno uma coisa: não te desvies do curso em que te pus. Cumpra o que te ordeno e os teus rebanhos serão numerosos, teus celeiros ficarão abarrotados mesmo nos tempos de fome para todos os seus vizinhos, tua mulher será fiel mesmo depois de tua morte, tua prole será bem empregada, terás vários imóveis, todos com piscina, sinuca e playstation e todos verão o quão bem-sucedido és. Ou não.” A Cláudia Raia chorava porque tinha sido presa, e o Dr., por sua vez, disse algumas coisas úteis, outras não, mas todas insuportáveis naquele momento.

Eu me pus de joelhos e rompi em choro: “Por favor, saiam todos vocês daqui! Eu só quero descansar um pouco!” Sensibilizados, eles saíram, apagaram a luz e fecharam a porta. Abriu-se um buraco negro no chão para onde deslizei. Permaneci no vácuo por oito horas e meia e depois acordei.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ocium Germanum

Post dedicado ao meu amigo Germano.
"Mais facilmente se deixarão persuadir pela necessidade de provocar o inimigo, de se exporem aos ferimentos ou mesmo à morte do que pelas vantagens do cultivo das terras e pelas promessas das abundantes colheitas. Quando não estão empenhados em guerras, não obstante concedem algum tempo à caça. O maior tempo, entretanto, é consagrado à viadagem, ao sono, à glutonaria. Nenhum homem forte e belicoso se inclina ao trabalho, pois entregam ao cuidado das mulheres as moradas, os serviços domésticos e os do campo. Assim, tanto amam a inércia como aborrecem o repouso." (Tácito. Germania. (séc. I-II))
Depois que eu terminar o trabalho de micro-história que empreendo atualmente, o "História do Alfinete no Brasil", iniciarei um definitivo estudo que será intitulado "História do Ócio no Ocidente", onde pretendo analisar minuniciosamente esta e muitas outras passagens, a fim de trazer à luz das ciências sociais as várias expressões de vagabundagem, sossego, preguiça e boa-vida que apareceram nas sociedades humanas nos últimos 4 milênios.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O Jogo

Eis uma paradinha que descobri na internet. É deveras maneira, se chama O Jogo e se joga assim:

O jogo tem apenas 3 regras simples:

1) Basta conhecer o Jogo para estar jogando.

2) Sempre que lembrar do Jogo, você perde.

3) Sempre que perder, você deve anunciar a derrota.




Você só precisa saber disso mas para saber mais, clique aqui



Perdi.

domingo, 10 de agosto de 2008

Trava

Dedicado à minha amiga Bárbara, um post onde me imprimi um pouco.

Ele chegou em casa às 4h30. A madrugada não lhe deu o descanso que buscava, não o desviou do único ponto que permeava o pensamento, cerca da mente e gelo do corpo. Sentou no sofá da sala e parou o olhar em uma pequena imagem de Nossa Senhora sobre a mesa. Por um segundo pensou em fazer uma oração. Talvez, por um segundo tenha realmente rezado. Caiu em si e, num sorriso pálido, riu de si mesmo.

Foi para o quarto. Pensou que tudo poderia ter sido diferente: azul ao invés de preto, um metro mais para a esquerda, 15 minutos mais tarde, sim ao invés de não, e as coisas tomam outro rumo. Pensou que, de tudo, o que mais lhe incomodava é que tinha culpa, e melhor seria sem ela, mas não percebeu que na verdade isso não fazia diferença. Pensou que estava sendo consumido já há um bom tempo e, ainda assim, ele passara em um piscar de olhos. Lembrou que tinha alguém a quem expiar e ali centrou sua raiva. “Inútil e ridículo”, percebeu ele em um raro momento de inteligência. Em um minuto, recobrou-se, cessou com aquilo e levantou.

Foi para a cozinha. No corredor, abriu a porta do quarto e os observou. Eles dormiam o sono dos justos, mal sabendo que lhes tinham reservado um fardo. Foi então acometido: levou a mão até a boca, apertou o rosto e implodiu-se em um grito dentro da cabeça e um choro seco nos olhos.

Voltou e desabou na cadeira, apoiou a cabeça, olhou para o teto e fechou os olhos. “Foda-se”: um suspiro que levou todo o ar do pulmão, e não era absolutamente nada mais do que isso. Era o pique de um aleijado, como se pudesse em um ato de firmeza desconsiderar o que se passava, como se pudesse em apenas um segundo se fazer grande, segurar o copo e parar a tempestade. “Foda-se”, como se pudesse fincar os pés em algum terreno, seja ele qual fosse, como se pudesse efetivar algo. Deitou e depois de um tempo dormiu. Amanhã era o dia em que iria até lá.

Acordou, encontrou os de casa na mesa, sorriu e fez gracejos, sorriram, comeu e saiu. Caminhou e não se iludiu com esperanças. Chegou. Recebeu o golpe. Sentiu-o forte mas não tanto porque já estava sendo atingido há semanas. Deveria organizar-se, entender, erguer-se e seguir centrado. Não soube fazê-lo em nenhum momento e isso é algo muito impressionante, mesmo para os espíritos menos sagazes. Foi deixando-se flutuar no medo, em pensamentos sem raciocínio e, assim, sem sentir, largou as rédeas e deixou o cavalo correr desastroso. Não tinha palavra na boca ou carta na manga. Era um plano mental onde se remoía e uma vida real onde se arrastava, sem conexão entre as duas partes.

Voltou. Estava nervoso com o baque, mas não exteriorizava. Relembrou o instante. Esquivou-se e disse, dessa vez com mais força, “Foda-se”. Mal encontraram a atmosfera, as palavras se desmancharam. Sua mente era viciada demais para que aquilo tivesse algum efeito. Chegou em casa e ligou o computador, onde ficaria até a hora de dormir.

sábado, 9 de agosto de 2008

Multidão e eu

"Multidão, cujo amor cobicei até à morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo de tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alienado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele torna a si - isto é, quando torna aos outros -, é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?" (Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre dois amigos que eu tenho


Um idiota diz alguma coisa e ela logo encontra terreno fértil no amigo. Entre eles, a idiotia vai ganhando uma significação mais ou menos particular, em formas que são mais ou menos códigos. Ela é incorporada totalmente e eles passam a enxergar totalmente as coisas assim, através de um idiotismo. E por aí eles vão, infinitamente, um alimentando a idiotice do outro.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Jesús de Chamberí (Mago de Oz)

Escrito para o blog ARISE!





Difícil entender porque não tem tantos fãs de Mago de Oz por aqui. A explicação que primeiro salta à vista e a única que parece existir é o fato de eles cantarem em espanhol. Enquanto a gente parece impor essa barreira ridícula e permanecemos sem ter no mínimo uma distribuidora nacional para os caras, eles fazem shows para 15 mil pessoas no Chile e colecionam discos de platina, ouro e não sei mais o quê no resto da América Latina.

Jesús de Chamberí é o segundo trabalho deles, de 1996. Não há dúvida de que o rótulo mais apropriado é o de folk metal, encharcados que estão da música dita celta, como nas músicas El Cuco e la Zingara, El Jiga Irlandesa e Czardas, que depois de um clima mais soturno, é um convite à dança. Mas as fontes em que eles bebem são diversas, deixando o disco com cara de salada, ainda que coerente. Os tecladinhos Jerry Lee Lewis de El Anjo Caído e o uso de metais em Domingo de Gramos, por exemplo, além de dar um toque extra de fanfarronice (essa coisa que é intrínseca a tantas bandas de folk), enriquecem bastante o disco em termos de sonoridade, o deixam bem variado e mais delirante.

O uso dos violinos e a presença de outros estilos não conseguem tirar os dois pés da banda do tradicionalismo. Aqui não há apelo ao melódico, coisa que vai aparecer mais pra frente em outros trabalhos. Tem Deep Purple, Saxon, Dio e guitarras para nenhum fã de Smith e Murray, Tipton e Downing reclamar, vide por exemplo o dueto da faixa título. Algo mais hard aparece em Judas e em Hasta que la Muerte nos Separe, que tem talvez o melhor solo de uma guitarra que, se por um lado não é um primor de originalidade, por outro tem um timbre muito bem escolhido, trabalha bem as fórmulas antigas e não fica perdendo tempo com cretinices técnicas.

O disco é conceitual e isso merece um capítulo à parte. Trata-se da saga de um Jesus humanista e libertário (essa imagem de Cristo é um tanto pop entre os ilustrados!!) que aparece em Chamberí, um distrito de Madri. Ele aconselha as pessoas a fazerem bastante sexo ( a letra de Al-Mejandría diz inclusive que o paraíso perdido é o que há entre as pernas da mulher) e não só curte um cigarrinho, como o eleva a símbolo religioso de máxima importância quando institui que quando dois ou mais estiverem fumando haxixe, ali estará ele também, além de outras coisas que chocariam a sua avó.

Heresia, bom humor, feeling, melodia, peso...Não tem motivo nenhum para não se ouvir essa bela obra.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Roça n Roll 2008


Escrito para o blog ARISE!, mas ainda não publicado lá por conjunções cósmicas mil.
Post dedicado ao meu amigo Gabriel (foto), morador de Ipanema, mineiro, cachaceiro, marxista e sangue bom.


Mesmo sem conseguir cobrir toda a cena carioca, o ARISE! atravessou as fronteiras do Estado para chegar ao Roça n Roll, evento open-air dedicado ao Rock e ao Metal que existe há dez anos em Varginha*. A viagem foi bastante cansativa, cerca de sete horas na estrada, mas foi muito bem compensada no decorrer do evento. Chegamos à fazenda no meio da tarde e, entre bosta de cavalo e pessoas já bêbadas, enfrentamos uma fila bem demorada para entrar. O motivo era a revista minunciosa que os seguranças faziam nas mochilas. Mesmo se questionarmos a inteligência de não deixar entrar nenhuma caneta ou lápis, tudo isso mostrou uma saudável preocupação da produção com a segurança do público.

Uma pessoa bêbada

Infelizmente, perdi as bandas Mr. Zé, Abysmal e Tormenta que tocaram enquanto eu estava do lado de fora (se não foi isso, eu não lembro de ter assistido a nenhuma delas). A primeira atração que vi foi a banda carioca Apokalyptic Raids, que executa um death com influências de Hellhammer, Venom e similares. A primeira execução foi I’m Metalhead, que exorcisou o Espírito Santo para fora de Minas Gerais e empolgou logo os ainda pouco presentes no local. O power trio fez um show sem falhas, enérgico, mostrando mais uma vez o por quê do forte referencial no underground nacional. Outras faixas de destaque foram Tyrant Emperor e o cover de Hellhammer, The Third of The Storms, com a participação de Angel da banda Vulcano, que foi recebida pelo público com emplogação extra. Perfeito. Foi para mim e para outras pessoas com quem conversei um dos melhores shows do evento.

Quando acabou o show do Apokaliptic, fui dar uma olhada no palco menor, (havia lá um palco pequeno e dois palcos principais). Estava rolando uma banda fazendo covers de Pantera. O som estava uma merda, os caras não eram bons, mas ainda assim o show rendeu rodas animais, prova da disposição e paixão do público ali. Depois disso, a banda Deventter subiu no palco principal com um show bem fraco. De interessante mesmo foi a versão que fizeram de Eleonor Rigby, algo que sem dúvida merece ser gravado. Talvez em estúdio o vocalista se saia melhor, já que ao vivo o cara deixa a desejar ( informação desnecessária: como ele era louro e estava de toca, lembrou o Jay, aquele personagem dos filmes do Kevin Smith rs). Se não me falha a memória, a próxima atração foi o Voodoo Shyne, banda de hard do interior de São Paulo, que participou da final nacional do Metal Battle desse ano. De fato, a banda tem grandes qualidades e fez um ótimo show. O que faltou foi algum cover que levantasse mais a galera.

Apokalyptic Raids (acima) e Voodoo Shyne

Entre uma atração e outra não havia grande demora e logo o Ação Direta, mais um representante do nosso Estado, subiu ao palco para fazer o diabo com seu punk hard core. O show dos caras foi violência pura e em termos de participação de público, foi um dos de maior êxito. Depois, entrou em cena o Liar Simphony, uma banda de melódico altamente técnica, com um excelente vocal, que ganhou o pessoal, apesar de eu mesmo não ter curtido muito. O ponto alto foi a execução da emocionante Flight of Icarus. Em seguida teve o Baranga trazendo um rock puro em uma performance indefectível, a melhor de sua carreira segundo o vocalista, causando um impacto muito maior do que essas poucas palavras podem traduzir.

Ação Direta e Baranga
O Hicsos foi esperado com certa expectativa pela platéia que durante a intro já gritava o nome da banda. Já nos primeiros acordes de Agony Sellers a porrada começou a comer e assim foi até o final. Na sequência, o quarteto carioca encabeçado pela voz forte de Marco Anvito emendou com Face to Face, faixa de abertura do excelente último trabalho do grupo. Outros destaques foram Technologic Pain (talvez a melhor composição da banda), Pátria Amada (música com uma letra interessante e que é uma lição no sentido de mostrar que mais heavy metal em português deve ser feito) e uma versão de Children of the Grave, dos nossos pais do Sabbath.


Hicsos

Depois do show do Hicsos eu deitei na grama e dormi um pouco e por isso perdi boa parte do show do King Bird, banda de rock com influências setentistas. Uma pena sem dúvida porque a banda estave ótima no pedaço do show que assisti. Recomendo fortemente a todos que ouçam a música Here Comes the Zepellin.

King Bird

Depois veio o Shaman com uma apresentação vergonhosa, o que me foi muito frustrante já que era a banda que eu estava mais a fim de ver ali. Parece que tudo deu errado. Pior mesmo só se o palco tivesse pegado fogo. Primeiro, as três primeiras músicas foram executadas sem que se pudesse ouvir a guitarra. Mesmo depois de terem aumentado o volume do instrumento, a coisa não melhorou muito. O som do teclado estava alto demais e isso com um tecladista que, não estava mandando bem. Para piorar, havia um pouco de embolação também. Mas o ponto mais negativo foi mesmo o vocalista Fabio Bianchi. Ele tentou, se esforçou mas não conseguiu me enganar: não estava cantando porra nenhuma. Uma grande pena porque ele arrebenta no disco Immortal. Mas uma coisa é o estúdio, outra é uma apresentação ao vivo. A questão que fica é se aquilo foi apenas um dia ruim ou se ele é outro Falaschi. Mas o público em sua maioria não deu muita atenção a nada disso e vibrou bastante com a banda. Os pontos altos foram Nothing to Say (do Angra), Fairy Tale, Tribal by Blood e Carry On, música da qual Confessori oportunísticamente se fez herdeiro.

Shaman (ou Shamen?) (entendeu a piada?)

Depois desse show meia-boca, o Thuatha subiu ao palco, primeiro com Marty Walkier para executar clássicos do Skyclad (fizeram gravações para um dvd inclusive) e depois para um show com músicas próprias. Vi um pedaço do primeiro e depois dormi de novo, infelizmente, e dessa vez sobre chão de madeira, na armação onde ficava uma das mesas de som. Achei que seria convidado a sair dali, mas hospitalidade mineira é uma realidade e alguém, além de me deixar ficar ali, ainda me deu um pano que me serviu como travesseiro. (Se você estiver lendo essa resenha, muito obrigado.) De fato, foi difícil permanecer aceso durante todo o evento, já que vinha dormindo pouco desde quarta-feira (estávamos naquela altura na madrugada de sábado para domingo) e ainda por cima bangeando há muitas horas com o corpo moído e o pescoço doendo. Mas o cansaço me atingia só ocasinalmente, o pior mesmo foi o frio que pôs todos os cariocas de joelhos, principalmente aqueles que não vieram preparados. Eu estava de jaqueta, casaco e camisa mas ainda assim tremia tanto que às vezes tinha vontade de me arremessar em uma das fogueiras que foram feitas por lá. Enfim, perdi o que provavelmente deve ter sido o ponto alto do evento, já que o Thuatha foi um dos melhores shows que vi na vida aqui no Rio de Janeiro ano passado. Devem concordar comigo todos aqueles muitos que lá no Roça dançaram e cantaram bem antes da banda aparecer, quando passava no telão um clipe de The Dance of The Little Ones.

Outra banda que se apresentou por lá foi o Vanquish, que decidiu apostar nos covers de Metallica, Ozzy e Led Zeppellin. Confesso que dei pouca atenção à banda (que beleza de resenha essa, hein!?) mas ainda assim deu para perceber que, mais uma vez, o problema era o vocalista.

A penúltima banda a se apresentar foi o Velhas Virgens, que fez o show mais divertido, com muita pederastia, sacrilégio, alcoolismo e rock n roll. O vocalista é uma grande figura: xingou quem não estava cantando, estorou lata de cerveja na cabeça, rebolou, mandou as meninas pegarem nos pintos dos caras que estavam perto, fez toda a platéia cantar odes à masturbação, simulou boquete com a japonesa Lili e tudo mais. Os destaques ficam com Cubanajarra, Abre essas pernas, Siririca, baby e a oração da Igreja Alcoólica do Último Gole. Um show mais do que marcante, certamente indigesto para muitos, porque manda o moralismo pastar com bastante extravagância e ousadia.

Velhas Virgens
Por último, veio o Korzus, o “Slayer brasileiro”, lá pelas cinco da manhã, se apresentando pela segunda vez no Roça n Roll. Fizeram um show ótimo que rendeu a maior roda do festival (o corredor da morte). Mesmo cansado, o público entrou nas pogas violentas que rolavam, embalados com a animação do vocal Pompeu e do baixista Dick Siebert, um cara com pouca sanidade e poucos cabelos. Os melhores momentos foram What are you looking for, Never get me down e Guerreiros do Metal.

Korzus
O saldo final do festival foi ótimo, mesmo com um e outro ponto baixo. A produção se mostrou bastante competente e organizada e todas bandas deram o sangue para fazer um bom espetáculo ali. Assitir a mais de 12 horas de Heavy Metal e Rock com uma multidão de bangers, punkers e etc. ao ar livre foi algo impágavel. Definitivamente, um open-air é algo que precisa haver também aqui no Rio.

Meu amigo Caio (botafoguense e virtuose no bandolim), Bruno Maia (vocal do Thuatha e idealizador do Roça) e eu, na Universidade Federal de São joão Del-Rey, há umas semanas atrás.

*Notem que eu não fiz nenhuma piada em relação a ets, ovnis, etc.