quarta-feira, 28 de outubro de 2009

André Matos em Niterói (25/10/2009)

Escrito por mim e pelo meu amigo Artur para o ARISE!

Há menos de uma semana fomos surpreendidos com a notícia de queAndre Matos viria ao Estado do Rio de Janeiro para dois shows: um em Campo Grande na Zona Oeste da capital fluminense (23/10) e outro em Niterói (dia 25/10). Era de se esperar que para um evento que contava com um nome de peso como o de Andre Matos (uma verdadeira instituição do metal nacional), Mindflow (uma banda em clara ascensão) e Taurus (banda antiga de importância ímpar para a cena no Rio), houvesse um público expressível. Mas não foi o que ocorreu: em Niterói, e pelo que nos foi informado, também em Campo Grande, o público foi algo abaixo de 200 pessoas, o que certamente se deve à pouca divulgação promovida pelos organizadores. Houve quem defendesse que isso se deveu à proximidade das datas que teria dividido o público entre os dois locais. Porém, há de se notar que tratam-se de dois locais distantes, com públicos distintos. Não cabe aqui também a velha ladainha de que carecemos de um bom público de Heavy Metal. É só lembrarmos que o último show do André Matos em dezembro do ano passado lotou o Canecão, casa que suporta por volta de 3 mil pessoas.

Nenhuma das bandas se abateu com o local esvaziado, demonstrando grande profissionalismo, o que é mais notável no caso de
Andre Matos, acostumado a grandes eventos. O público respondeu à altura, injetando ânimo às bandas e contribuindo para o espetáculo.

A primeira banda foi o
Age One, que praticam um Power mesclado com Thrash e vocais inspirados em Rob Halford. Desfalcada de seu tecladista, a banda fez um set curto, com destaque para o cover deFlight of Icarus, do Iron Maiden. A segunda a entrar foram os veteranos do Taurus, praticantes de um Thrash destruidor, e que fizeram um show glorioso. Curioso que a banda, existente desde de idos de 80, nunca tinha feito uma apresentação em sua cidade natal, Niterói. Um destaque deve ser dado ao guitarrista Cláudio Bezz. OMindflow, estreante em palcos fluminenses, executou um preciso metal progressivo, de sonoridade bem moderna e agressiva, o que não deixou de incluir uma música com acento pop. Demonstrando carisma, a banda conquistou o público. Mesmo sendo todos mais do que competentes, destacamos o baterista Rafael Pensado, que não só possui técnica, como também uma pegada de grande força, e a versatilidade do vocalista Danilo Herbert.

André Matos sempre entra no palco com o público na mão e dessa vez não foi diferente. Ele, assim como toda banda, deu o melhor de si. O som, principalmente na segunda metade do show, estava embolado e muito alto, o que trouxe um considerável prejuízo (não que a maioria das pessoas tenha realmente se importado). Como ponto negativo, também consideramos a escolha do set-list, que não deu espaço devido aos clássicos da carreira pregressa do vocalista. André privilegiou os dois últimos álbuns, que são os pontos menos criativos e de menor relevância dentro da obra desse grande artista. Salvo esses problemas, a noite mostrou uma banda entrosada, carismática e em ótima forma.

O show foi aberto com
Leading On e ficou claro que a galera já tinha as letras do novo álbum na ponta da língua. De Mentalize ainda teve a faixa-título, I Will Return e Never Say No. Do disco anterior, Time to Be Free, tocaram Letting Go (pedida muito pelo público), Rio,How Long (Unleashed Way) e Endeavour, que está se tornando a música que fecha os shows. Do Angra, tivemos Carry On e Lisbon. DoViper, um medley de Living for the Night e A Cry from the Edge, esta última com peso e velocidade extras. Foi um dos pontos altos da sinergia entre banda e público na noite. Do Shaman, sua empreitada anterior, a solitária representante no set foi Fairy Tale, outro dos pontos mais altos. Some-se o cover do Journey, Separate Ways.

André estava especialmente comunicativo na noite, talvez por conta de uma ligação especial com a cidade, onde tem parentes e morou por grande parte da vida. O ânimo o fez incorrer inclusive em um elogio desmerecido à Araribóia, a quem saudou como herói que lutou contra os portugueses, senda a história outra: o índio na verdade era aliado dos colonizadores lusos no massacre de outras tribos.

Hugo Mariuti, que no passado foi tão questionado por não ser considerado um guitarrista à altura para substituir a antiga dupla de guitarras que acompanhava André, cada vez mais se consolida como uma das peças mais fundamentais da banda. Isto não só por conta de sua grande participação nas composições, mas também por sua performance no palco, sendo um “segundo” frontman. Eloy se demonstrou, agora mais do que antes, uma escolha acertada. Fez um memorável solo de bateria de grande impacto: violento, técnico e variado. O músico de 18 anos foi vítima de brincadeiras de André: além de felicitá-lo pela sua maioridade, lembrando que o antes garoto agora pode dirigir e beber, o vocalista sugeriu que o batera toma bomba para ficar forte.

O saldo final do evento, apesar dos percalços da produção, foi positivo. Foi louvável a iniciativa de levar esses importantes grupos para regiões não habituadas a receber artistas desse porte.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Poesia para Bárbara

Uma cretinice, mas com muito carinho.

Da mente preguiça e lerda
Surf de onda pós-moderna
Flor do paradigma efêmero
Bárbara estudante de gênero.

Mas que nesse sangue correria
Vermelho, outro método e teoria
A estrófe não deu nenhuma pista
Bárbara a mais true marxista.


Debaixo dos cachos pretos não disfarça
E nem se esconde em mil blogs que ela faça
Que guarda o amor e o fuzil para a revolução

Não a burguesia financeira e industrial,
E nem se quisesse, mesmo o Tito Pal,
Derrubariam a comuna do seu coração

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Esquizofrenia em The Office



The Office é primoroso no seu realismo: o tédio das horas que não passam, a atividade sem significado pessoal nenhum, os sonhos, as tensões pessoais, a atenção voltada para as menores e mais simplórias coisas para poder respirar fora do trabalho (um grampo, uma planta, o movimento do logo no descanso de tela)...é a empresa e a vida de uma forma total. E por isso tem esse sucesso de fazer você imergir completamente na Dundler Mifflin, onde os heróis trabalham vendendo papéis, e imergir dentro da vida deles também. Aquelas pessoas existem de verdade, e você provavelmente é uma delas, assim como aquele escritório, que deve ser o seu local de trabalho. Não à toa, o seriado é como um reality show (apesar de também contraditoriamente não o ser!) capaz de enganar os mais distraídos, que estão vendo na verdade uma ficção: tem a câmera sozinha com os personagens, colhendo seus depoimentos; a câmera recebendo seus olhares enquanto fazem qualquer coisa, denunciando a consciência de estarem sendo filmados; e a câmera que filma de longe, escondida, na brecha, sem nenhuma ciência dos protagonistas.
É uma comédia escandalosamente hilariante, boba, besta, mas tem espaço pro choro da recepcionista sem grandes perspectivas que pegou a si mesma no ridículo de dizer que seu sonho era uma casa com varanda, igual a uma que viu quando era criança; pro desabafo do vendedor que não quer mais trabalhar ali, mas que não tem pra onde ir; pras sutilezas da administração de uma paixão reprimida; pro terror que é ter um emprego em uma empresa que anda fazendo cortes; pra falta de pirú da mulher histérica; pro jogo com a autoridade do patrão; pra dança que a filial tem que fazer pra matriz, etc. Me recuso à aceitar que The Office é um mundo só da televisão, que acaba quando ela desliga! Não, aquele escritório, a vida daquelas pessoas, não pára, ele continua. Acho que nenhum outro seriado americano de comédia tem essa força.
Mas o seriado, talvez por conta de ter vários roteiristas, em vários momentos esquizofrenicamente desliza. Às vezes sai dessa atmosfera pra entrar em uma mais tradicional, de universo hermético, artificial, não mais infinito, com os personagens falando com o propósito de fazer rir, com a graça deixando de ser “acidental”, onde eles tem a piada e a encaixam no timing certo, deixando de serem pessoas para serem comediantes. Aí parece que você tá assistindo Friends ou Two and a Half Man ou The Bing Bang Theory, onde você vê claramente a mão do roteirista encaminhando tudo, preparando lá atrás o que vai aparecer na frente. Você continua rindo, mas os personagens já perderam sua confiança. Eles, assim como o seu universo, também passam a ser meio que monocromáticos, unidirecionais, coisa que é mais próxima mesmo dessas comédias mais tradicionais, onde você sabe exatamente as regras do jogo, os limites do mundo, o que o cada um dos personagens vai falar, o que vai fazer, a um kilômetro de distância. Eles ficam assim mais próximos da caricatura, uma coisa meio over. Acho que o House, seriado que eu, admito, não conheço bem, sofre um pouco disso: é sempre aquele cara durão, sem papas na língua, arrogante, o reverso do pieguismo...ok, beleza, mas quando uma garotinha a quem ele salvou a vida o abraça e chora agradecida e ele se comporta carrancudo, há pouco de tangível aí. No The Office, os roteiristas às vezes deixam a coisa cair pra esse lado, e eu fico puto com isso, porque foi exatamente por não ter tomado esse caminho que o seriado é tão poderoso, em vários sentidos.
A sexta temporada começou semana passada, e depois da cagada que tava sendo os rumos narrativos da quinta, eu tava meio preocupado. Felizmente, o episódio de estréia foi fantástico. Espero que eles, junto com os mil elementos fantasticamente non-sense que são uma diversão só, mantenham a sofisticação responsável por apresentar um retrato sagaz dos EUA, do trabalho sob o capital e de tudo mais que é humano. E que, longe de introduzirem claques, mantenham a crueza, a “espontaneidade” e a verdade da parada.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ela é dessas pessoas que precisam muito falar, falar de si, do que sabem e o diabo, para uma platéia de mortos mais do que para interlocutores. E foi o que ela fez por 15 minutos, emanando o seu brilho ao responder maçãs às uvas que perguntei. Eu, que sempre expresso um bem disfarçado interesse, nunca fui mais do que um cúmplice desses umbigos do mundo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Trovão Tropical


Tom Cruise, apesar de ser um ator muito limitado, funciona muito bem interpretando aquele personagem que ele faz em todos os filmes, que eu acho que é ele mesmo. A merda é que quando ele interpreta alguém que é diferente de si mesmo, ele continua interpretando a si mesmo. É o que acontece com o personagem dele de Trovão Tropical. É impressionante o quanto ele preserva ali os trejeitos, tons de voz e eteceteras do que ele fez, sei lá, em Rain Man, Dias de Trovão e todo o resto. Quando consegui abstrair a cretinice do ator, até que curti um pouco o personagem.

O filme é legalzinho, mas de imperdível mesmo só tem uma parada no bônus do dvd. É o trailler do que seria um documentário sobre o filme que eles fazem dentro do filme (a história do Trovão Tropical é essa). Uma sátira de Apocalypse Now, que também teve um documentário sobre sua realização. Dá pra ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=TlTxeuOQpt0

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Defesa e liberdade

Ele confessava que não sabia ler e escrever, falava isso na menor oportunidade pras pessoas, rindo de si próprio e fazendo todos rirem, que é pro assunto não vir à tona com ele desprevinido, que é pra ninguém rir dele sem ele, porque alguém que ri de alguém que ri de si próprio está sempre desarmado. Ele também confessava que confessava que não sabia ler e escrever, um segundo escudo contra o primeiro, que é pras pessoas não dizerem que ele falava que não sabia ler e escrever pra se defender. Assim, ele brincava consigo mesmo pra não cair em uma situação constrangedora mencionando que brincava consigo mesmo pra não cair em uma situação constrangedora. Uma vez, ele chegou mesmo a dizer que confessava que confessava que confessava que não sabia ler e escrever. O resultado disso era desastroso porque todo mundo notava que aquele esquema de aparências era o modo mais fácil de mostrar o que ele tentava esconder. Foi só porque essa estratégia acabou se mostrando furada que ele acabou se resolvendo de verdade, através de uma mais ou menos simples decisão de que aquilo não lhe seria mais um problema. Depois disso, ele pôde pensar melhor se valia ou não a pena entrar na escola para aprender a ler e escrever. Podia pensar melhor porque o seu problema agora era o não saber ler e escrever e não a sua imagem de alguém que não sabe ler e escrever. E todas as vezes depois em que o assunto apareceu e as pessoas riram, ele pôde rir junto, mas agora ele verdadeiramente ria dele, e para ele e com elas, e não mais por elas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Corte

-Como você quer o corte?
-Assim mesmo. Eu só quero que ele diminua de tamanho.
-Mas como?
-Não sei.
-Não sabe?
-Não.
- Não sabe como você quer o cabelo?
- Eu corto o cabelo há pouco tempo...
-O quê?
-Eu tinha o cabelo grande há até pouco tempo atrás, então eu não sei qual é o meu corte...
-Não te ouvi. Você quer deixar o cabelo crescer?
-Não, eu quero cortar.
-Você quer deixar ele batidinho aqui atrás?
-Faz o que você achar melhor.